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E la nave va...
27-março-15  Mercado

... ou considerações sobre o consumo de vinhos no Brasil

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Atuando profissionalmente com vinhos há 18 anos, tendo inclusive participado da formação dessa cultura no Brasil, assisti de camarote à evolução dos consumidores brasileiros nesse período.

Relato aqui evoluções importantes nessa caminhada.

Nos países produtores de vinho a cultura de consumo é passada nas famílias, sempre com vinho à mesa. Desde a adolescência os filhos provam vinhos com os pais, é uma cultura secular. Nosso país tropical não tem essa cultura, então tivemos de aprender bem mais tarde.

Depois do sucesso do Liebfraumilch nos anos 80, quando os brasileiros começaram a se interessar pelo vinho, passamos um bom tempo concentrados nos vinhos do Chile e da Argentina. A proximidade geográfica facilitava a importação, e a indicação da uva no rótulo ajudava na escolha, então os Malbec e Cabernet Sauvignon se tornaram frequentes em nossas taças. A Carmenère logo entrou para esse clube, reafirmando a preferência por vinhos tintos que duraria por bastante tempo. A busca por “tops” chilenos era o santo graal da qualidade, era pagar mais caro por mais qualidade do mesmo perfil de vinhos.

Hoje os tintos franceses, principalmente de Bordeaux, os espanhóis, os toscanos e o ícone italiano Brunello, os portugueses do Alentejo, e outros países dividem a atenção dos compradores.

Os vinhos brancos foram durante muito tempo considerados “aguados” ou “vinho de mulher”. A oferta geral era de rótulos mais baratos, apenas os conhecedores consumiam grandes brancos, na maioria franceses. Hoje os brancos estão em alta, a importação de rótulos de maior prestígio aumentou muito, e a diversidade também cresceu.

Consumidos unicamente em formaturas e no réveillon, os espumantes experimentaram um surto de consumo com a descoberta do Prosecco, a ponto de seu nome se tornar símbolo para espumante... Hoje, uma grande diversidade de espumantes é consumida em todos os momentos, os franceses ganharam muito espaço. Esses ótimos vinhos se tornaram – como na Europa – o vinho ícone para aperitivos, reuniões informais e “welcome drink”.

Os espumantes brasileiros tiveram grande alta, desde o início de uma produção de qualidade ao final dos anos 90 e várias premiações mundiais. Hoje a concorrência de preços dos importados dificulta sua venda em maior volume.

Os vinhos rosés tiveram altas e baixas de consumo nos últimos dez anos, mesmo no âmbito mundial. Ainda são considerados vinhos “femininos” e erroneamente vistos como adocicados, culpa de vinhos do passado. Hoje os rosés gastronômicos, secos e elegantes ganharam muito público, principalmente feminino, mas são vinhos interessantíssimos em termo de combinação com comidas. O estilo da Provence, com rosés de cor leve, mas intensos na boca, é uma alta mundial.

Nos últimos 5 anos a descoberta das regiões e denominações de vinhos de muitos países explodiu com as facilidades de importação e exportação. Países como Espanha, Austrália, África do Sul, Nova Zelândia, Grécia surgiram nas prateleiras, com muita qualidade e preços competitivos em relação aos tradicionais França, Itália e Portugal.

Com isso, os consumidores podem hoje encontrar os vinhos que mais lhe agradam, depois de experimentar livremente essa enorme variedade.

Temos a tendência de repetir o que já conhecemos, por medo de errar frente ao desconhecido. Para isso, a sugestão dos sommeliers é uma grande ajuda, pois rapidamente você vai descobrir o estilo de vinho que lhe agrada mais.

Hoje temos à disposição um riquíssimo portfólio de vinhos, graças à globalização. Uma pergunta frequente “Indique-me um bom vinho” se tornou incoerente, pois diante da variedade de sabores, estilos, uvas e culturas, o correto é pensar em qual “estilo” gustativo lhe agrada, e isso pode variar muito... então, experimente, arrisque, e divirta-se!

Referências
Fonte: Artigo publicado pelo mesmo autor na Revista Verdemar em abril de 2015

 

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