Mas isso é mesmo verdade? Os chamados conhecedores realmente têm
uma maior capacidade de percepção ou de discriminação? Será que não seria tudo uma
questão de linguagem, em que os iniciados possuem um jargão específico, não acessível
aos mortais comuns, através do qual eles podem se comunicar e eventualmente até
intimidar os que a ele não são afeitos? Pesquisadores têm se debruçado sobre estes
temas, e decidimos procurar na literatura científica quais as conclusões disponíveis
sobre o assunto.
Em 1975, uma lingüista americana, Adrienne Lehrer (1), fez
um estudo em que consumidores freqüentes de vinhos eram submetidos a experimentos que
consistiam no seguinte: Eles deveriam provar três vinhos diferentes (que não eram
identificados para os provadores), descrevê-los sucintamente e assinalar em uma lista de
adjetivos, quais os termos que melhor se aplicavam aos vinhos degustados. Finalmente, em
uma lista bem mais extensa, deveriam assinalar todos os termos que pudessem se aplicar aos
vinhos experimentados. O resultado foi que as descrições variavam extremamente de pessoa
para pessoa, e dependiam fundamentalmente do fato do provador ter gostado ou não do vinho
em questão. Não havia, portanto, concordância na maneira em que eram descritos os
vinhos ou em relação aos adjetivos que a eles se aplicavam. Feita uma análise
estatística dos resultados, o único dado significante foi que os que melhor conheciam
vinhos (o que foi medido por um questionário previamente aplicado) usavam mais palavras
para descreve-los do que aqueles com menor conhecimento (desempenho mais pobre no
questionário prévio). Em uma sequencia do mesmo trabalho, as descrições feitas pelos
participantes eram fornecidas a outros participantes, que deveriam decidir a quais vinhos
elas se referiam. Estatisticamente, os resultados não foram além das previstas pelo
acaso, ou seja, de uma maneira geral as pessoas não foram capazes de identificar o vinho
descrito por uma outra pessoa.
Em 1984 (2), Harry T. Lawless, do Monell Chemical Senses
Center, EUA, retomou o mesmo tema. Usou nos experimentos dois grupos de pessoas. O
primeiro grupo, de "noviços", era constituído por gente que não tinha
experiência na descrição de vinhos. O segundo grupo, de "especialistas" era
formado de gente que tinha envolvimento profissional com vinhos, ou tinha algum
treinamento em degustação, ou ainda que participava há muito de sociedades de
degustação (os participantes de ambos os grupos foram avaliados pelo mesmo questionário
proposto por Lehrer). Na primeira sessão os sujeitos deveriam provar seis vinhos brancos
não identificados e fazer uma descrição das características de cada um deles. Na
segunda sessão eles recebiam inicialmente 3 cartões contendo suas próprias descrições
para três dos vinhos anteriormente degustados e deveriam dizer, provando novamente os
seis vinhos, a quais deles as descrições se referiam. Em seguida recebiam três cartões
com descrições feitas por alguém do seu mesmo grupo e mais uma vez deveriam identificar
os vinhos. Finalmente recebiam três descrições feitas por pessoa do outro grupo para
uma vez mais fazer a identificação.
Os resultados, como no trabalho anterior, mostraram que
havia pouca concordância entre os sujeitos no que se referia às descrições, e que os
especialistas se utilizavam de mais termos para se referir ao odor dos vinhos do que os
noviços. Ficou claro, contudo, que os especialistas se saiam melhor que os noviços nas
tarefas de identificação. A diferença teve significância estatística ainda que com
uma margem não muito grande. Além disso, os especialistas se saíram melhor quando
usavam uma descrição também feita por um especialista, ou seja, as descrições se
tornavam mais efetivas se se dirigiam a um público que sabia decodifica-las.
Em 1985, o próprio Lawless (3) publicou os resultados de
outros experimentos que consistiam no seguinte: Ele pediu que dois especialistas (um deles
era consultor de companhias vinícolas e tinha larga experiência na organização de
cursos para desenvolvimento de capacidades descritivas, enquanto que o segundo era um
psicólogo especialista na fisiologia do gosto e do olfato, sendo ele próprio treinado na
degustação de vinhos) fizessem a descrição de 6 vinhos dispostos em dois grupos. Os
três vinhos do primeiro grupo eram bastante semelhantes, enquanto que os outros três
formavam um grupo dissimilar. A seguir os vinhos foram provados por gerentes de qualidade
de várias empresas, que tinham experiência em técnicas de análise descritiva. Eles
deveriam degustar os vinhos de cada grupo e, depois de ler as descrições feitas pelos
especialistas, dizer a que vinhos elas se referiam. O resultado mostrou que nos vinhos
semelhantes o acerto não foi maior do que o esperado pelo acaso e apenas nos vinhos
dissimilares o acerto foi significante.
O trabalho provavelmente mais completo sobre este assunto
foi feito por Gregg Solomon, da Universidade de Harvard (4). Solomon fez algumas críticas
na maneira como foram conduzidos os trabalhos descritos anteriormente, e inovou na maneira
de pesquisar o assunto em questão.
Num primeiro experimento, ele pediu que seis pessoas
descrevessem cinco vinhos tintos diferentes. Dessas seis, três foram consideradas
"especialistas" pois estavam profissionalmente envolvidas com vinhos ou faziam
parte de sociedades de degustação, enquanto as outras três envolvidas foram
consideradas "noviças". Num segundo momento, trinta pessoas diferentes
participaram, provando os vinhos e comparando-os com as descrições. Destas, 15 eram
"especialistas", enquanto 15 eram "noviças". Cada vinho era
apresentado individualmente, num copo numerado, juntamente com duas descrições, feitas
por uma mesma pessoa. Uma descrição se referia ao vinho em questão, enquanto outra era
de outro vinho. A tarefa consistia em dizer qual descrição era a correta. Cada sujeito
provava os vinhos em duas sessões. Em uma delas, as descrições tinham sido feitas por
um especialista, enquanto que na outra, por um noviço. Os resultados mostraram que os
especialistas fazem o emparelhamento melhor a partir de descrições geradas também por
especialistas, sendo este o único resultado que não poderia ser atribuído ao acaso, ou
seja, os noviços e mesmos os especialistas não são capazes de identificar o vinho a
partir das descrições feitas por noviços. Além disso, foi constatado que os
especialistas usam mais termos para descrever o aroma e o gosto dos vinhos e identificam
geralmente mais características que os noviços. Isto é, os primeiros usam melhor a
linguagem e portanto se comunicam mais efetivamente que os segundos.
Para testar se tudo se resumia a uma questão de linguagem,
Solomon fez um outro experimento, usando mais uma vez três especialistas e três
noviços. Os vinhos eram os mesmos do experimento anterior, mas aqui os sujeitos, depois
de provar cada vinho, recebiam uma lista com 167 termos retirados do vocabulário
comumente encontrado nos livros sobre vinhos, e deveriam assinalar quais desses termos se
aplicavam ao vinho em questão. Outros trinta voluntários, sendo quinze especialistas e
quinze noviços, deveriam mais tarde tentar identificar os vinhos a partir dos termos
marcados, de uma maneira semelhante a aplicada ao experimento anterior.
Mais uma vez ficou claro que os especialistas reconhecem
melhor os vinhos a partir das listagens feitas por especialistas, enquanto que nas demais
condições as identificações não iam além do que era esperado pelo simples acaso.
Além disso, pôde-se observar que os especialistas concordam mais entre si nos termos
assinalados e se concentram em algumas caracteristicas mais salientes. Os noviços usaram
muito mais termos para descrever os vinhos, porém com uma concordância muito menor. O
experimento indica, portanto, que a diferença entre os grupos não pode ser atribuída
apenas a uma questão de vocabulário, mas também se deve a uma diferença na
percepção.
Solomon continuou seu estudo em mais um experimento. Neste
foram usados como sujeitos quatro especialistas e quatro noviços. Foram usados também
quatro vinhos brancos bordaleses, virtualmente idênticos na aparência. Apresentavam-se
ao sujeito três copos de cada vez, dois contendo o mesmo vinho e o terceiro com um vinho
diferente. A tarefa consistia em identificar o copo que continha o vinho diferente.
Verificou-se que os especialistas faziam isto facilmente, sendo o seu desempenho muito
acima do esperado pelo acaso. Os noviços, contudo não obtiveram resultado melhor do que
devido à sorte. Contudo, como os especialistas poderiam estar se concentrando em apenas
uma determinada característica facilmente perceptível, o pesquisador resolveu fazer
ainda um último experimento, para verificar se os especialistas poderiam sair-se melhor
que os noviços na análise de diversas características organolépticas dos vinhos.
No quarto e último experimento, participaram oito
especialistas e oito noviços. Foram usados os mesmos vinhos do experimento 2,
identificados apenas por uma letra. Os sujeitos deveriam provar os vinhos e em seguida
assinalar em uma lista, que continha várias características referentes ao aroma (alcool,
frutas, vegetais), sabor (doçura, acidez, tanino, corpo, equilíbrio) e acabamento
(duração, intensidade e retrogosto), como os diversos vinhos apresentavam (ou não)
estas características, em uma ordem hierárquica. Por exemplo, os sujeitos listavam os
vinhos do mais doce ao menos doce. Verificou-se que, de um modo geral, os especialistas
não se saíram significativamente melhor que os noviços. Contudo, eles concordavam em um
nível superior ao esperado pelo acaso nas características "doçura",
"tanino" e "equilíbrio", enquanto que os noviços só obtinham
concordância na característica "doçura". Assim, ficou claro que os
especialistas são capazes de perceber melhor ao menos algumas características, e que
fazem mais associações em relação às propriedades organolépticas. Os noviços
parecem se restringir, ao menos do ponto de vista linguístico, à característica doce /
não doce.
O conjunto de resultados mostra, portanto, que os
conhecedores diferem dos principiantes não só na discriminação mais precisa, na
capacidade de identificar as características principais e como elas variam entre si, mas
também na precisão da linguagem. A habilidade linguística, por sua vez, ajuda no
reconhecimento e portanto na discriminação sensorial.
A literatura científica parece endossar, portanto, o senso
comum. O treino e a aprendizagem podem realmente aumentar a discriminação sensorial e
proporcionar um maior prazer na apreciação de um bom vinho.
BIBLIOGRAFIA
- Lehrer, A.
Talking about wine.
Language, 51:901-923, 1975.
- Lawless, H.T.
Flavor description of white wine by "expert"and nonexpert wine consumers.
Journal of Food Science, 49:120-123, 1984.
- Lawless, H.T.
Psychological Perspectives on winetasting and recognition of volatile flavours.
In: Birch, G.G. & Lindley, M.G. (Eds) Alcoholic Beverages, Elsevier, London, 1985
, Chap. 8, pp. 97-113.
- Solomon, G.E.
Psychology of novice and expert wine talk.
American Journal of Psychology, 103:495-517, 1990.
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