seta_up.gif (116 octets)O VINHO E A MEDICINA


Autor: Dr. Júlio Anselmo de Sousa Neto, médico, enófilo, autor de livros e artigos sobre vinho

Antes de iniciarmos o artigo propriamente dito apresentamos, como curiosidade, algumas citações relacionadas com o vinho e a medicina.

  • Citação dos livros do Talmud (500-400 a.C.): "O vinho é o mais notável de todos os remédios; onde falta o vinho, os remédios se fazem necessários".
  • Sócrates (470-399 a.C.): "O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente...ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga. Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará em seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã...Assim, então, o vinho não viola a razão, mas sim nos convida gentilmente à uma agradável alegria."
  • Hipócrates (460-370 a.C.): "O vinho é bebida excelente para o homem, tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e conforme seu temperamento."
  • Avicena (980-1037): "O vinho é o amigo do moderado e o inimigo do beberrão."
  • Paracelso (1493-1541): "Só a dose faz o veneno."
  • Pasteur (1822-1895): "O vinho pode ser de direito considerado como a mais higiênica das bebidas."
  • Fleming (1881-1945): "A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes."

A seguir, apresentamos um pequeno resumo das relações do vinho com a medicina. Os números entre parênteses referem-se à bibliografia citada ao final do artigo.

O primeiro registro escrito do uso medicinal do vinho: É proveniente do Antigo Egito e encontra-se no museu da Universidade da Pennsylvania. Data de mais de 2000 anos a. C. e foi encontrado na cidade de Nippur. Nele está relatado que na Suméria , próxima da Babilônia, ungüentos eram misturados com vinho pa-ra tratar doenças da pele. (1)

Papiros egípcios de cerca de 1500 a.C. relatam o uso do vinho como trata-mento primário para asma, constipação, epilepsia, indigestão, icterícia e depressão1 e os livros doTalmud (500 a.C.- 400 d.C.) documentam o uso medicinal ou afrodisíaco do vinho.1 Na Índia Antiga (2500 - 2000 a.C.) muitas recomendações do uso medicinal do vinho estão do Rig-Veda e são similares às do antigo Egito. 1 Na Grécia Antiga, Homero, descreve na Ilíada e na Odisséia (850 a.C.) o valor do uso local e sistêmico do vinho no tratamento de ferimentos de guerra. (1)

Hipócrates (460 -370 a.C.) o pai da medicina, nascido na ilha grega de Kos, incorporou o vinho no tratamento da maioria das doenças agudas e crônicas, recomendando-o como suplemento dietético na caquexia, como diurético, como purgativo, como antitérmico, como antisséptico em emplastos para prevenir a supuração de ferimentos e ainda na convalescença quando havia depressão. (1)

No entanto, ele foi muito específico, inclusive desaconselhando às vezes seu uso e sempre recomendando um vinho particular para um uso particular. Um de seus textos mostra como ele observava o corpo humano com clareza e entendia como os intestinos podiam ser afetados: os vinhos tintos leves são umectantes; eles são flatulentos e passam melhor às fezes... os vinhos brancos ásperos queimam sem secar e passam melhor pela urina do que pelas fezes. Os vinhos novos passam melhor pelas fezes do que outros vinhos, porque estão mais próximos do mosto e são mais nutritivos... O mosto causa gases, agita os intestinos e os esvazia. (2)

Hipócrates também observou que "o vinho doce" (isto é, parcialmente fermentado) causa menos peso na cabeça do que o forte e bem fermentado, vai menos ao cérebro, esvazia mais os intestinos, mas causa intumescimento do baço e do fígado. Como o vinho branco forte, passa mais prontamente para a bexiga, sendo diurético e laxante, é de várias formas sempre benéfico em doenças agudas. No entanto, você deveria suspeitar que se houver um excessivo peso na cabeça ou se o cérebro estiver afetado, deve ser total abstinência de vinho." (2)

Outra observação interessante de Hipócrates é de como o vinho deve ser bebido: "Nem tão quente, nem tão frio. O uso prolongado de vinho quente leva à imbecilidade e o uso prolongado de vinho muito frio provoca convulsões, rigidez espasmódica, mortificação e arrepios frios, terminando numa febre.(2)

Sócrates (470-399 a.C.) e Aristóteles (382-322 a.C.) exaltaram a importância do vinho para a saúde, assim como Platão (428-347 a.C.), que recomendava o uso do vinho especialmente para homens , idosos para "diminuir o amargor da velhice". (1)

Asclepíades (124 -40 a.C.), médico grego emigrado para Roma, foi médico de Homero e um dos mais notáveis médicos de sua época. Sabiamente, ele baseava sua terapêutica na restrição dietética, exercícios físicos e consumo de vinhos! (1)

Celsus (25 a.C.- 37 d.C.), escreveu sobre as diferentes propriedades terapêuticas dos diversos tipos de vinho, como por exemplo: os vinhos secos e leves para doenças do estômago, os encorpados para nervosismo e os salgados para efeito purgativo na icterícia.(1)

Dioscorides (próximo de 80 d.C.), cirurgião do exército de Nero, prescrevia vinho e parece ter sido o primeiro a usá-lo para anestesia. Ele provocava um estado letárgico em seus pacientes mediante o uso de "vinho de mandrágora" e também cauterizava feridas com ele.(1)

Galeno (131-201 d.C.), de Pergamon, na Ásia Menor, o maior médico grego depois de Hipócrates, estudou por 12 anos em Corinto e Alexandria e depois foi nomeado médico dos gladiadores em Pergamon. Ele cuidava da dieta e dos ferimentos dos gladiadores e se gabava que nenhum deles havia morrido em suas mãos, o que parece improvável, já que o único recurso de que dispunha para tratar ferimentos horríveis era lavá-los com vinho2. Ele observou que os ferimentos não sofriam putrefação quando tratados com vinho e que, quando ocorria evisceração, banhando-se as alças intestinais em vinho, antes de recolocá-las no abdome, evitava a peritonite.1 A propósito, o manuseio de ferimentos profundos permitiram a ele estudar anatomia e avançar a técnica da cirurgia.(2)

Galeno elaborou uma lista de remédios vegetais, conhecidos como "galênicos", a maioria dos quais era composta com vinho.(1)

Apesar do trabalho do médico de Nero, Dioscorides, descrevendo as ervas medicinais, a identificação de plantas de uso médico era bastante falha e um bom médico não confiava a ninguém a coleta das plantas que desejava. Galeno, observador e metódico, classificou e usou magistralmente as ervas. É dito a seu respeito que ele transformou a medicina de arte de curar em ciência de curar. O seu sistema de cura era tão bem organizado, tão compreensível, dogmático e plausível, que foi seguido pela medicina européia até quase os tempos modernos.(2)

Tornando-se famoso na Roma Antiga, Galeno foi nomeado médico particular e conselheiro de Marco Aurélio, sendo que uma importante parte de suas atribuições era proteger o imperador de envenenamento. Para tanto fazia preparações denominadas "teriagas" feitas com vinho e ervas. Ele escreveu um tratado denominado "De antidotos" sobre o assunto, no qual existem considerações perfeitas sobre os vinhos, tanto italianos como gregos, bebidos em Roma nessa época: como deveriam ser analisados, guardados e envelhecidos.(2)

Com a queda de Roma, seguiu-se um período negro na Medicina com a proliferação da charlatanice e com a dominação da Igreja que exaltava a tolerância da dor como a maior virtude humana. Gradualmente, no entanto, os chamados "hospitais-mosteiros" foram sendo substituídos por escolas com professores clérigos e seculares. Uma das primeiras foi a de Salerno que, curiosamente era aberta a mulheres, das quais a mais famosa foi Trotula (século XI) que escreveu numerosos livros sobre higiene e obstetrícia e enalteceu o uso do vinho em várias moléstias, desde o prolapso do útero até a crupe.(1)

É também da idade média (século XIV) o primeiro livro impresso sobre o vinho: "Liber de Vinis". Escrito pelo espanhol ou catalão Arnaldus de Villanova, médico e professor da Universidade de Montpellier, o livro continha uma visão médica do vinho, provavelmente a primeira desde a escrita por Galeno. O livro cita as propriedades curativas de vinhos aromatizados com ervas em uma infinidade de doenças. Entre eles, o vinho aromatizado com arlequim teria "qualidades maravilhosas" tais como: "restabelecer o apetite e as energias, exaltar a alma, embelezar a face, promover o crescimento dos cabelos, limpar os dentes e manter a pessoa jovem". O autor também descreve aspectos interessantes como o costume fraudulento dos comerciantes oferecerem aos fregueses alcaçuz, nozes ou queijos salgados, antes que eles provassem seus vinhos, de modo a não perceberem o seu amargor e a acidez. Recomendava que os degustadores "poderiam safar-se de tal engodo degustando os vinhos pela manhã, após terem lavado a boca e comido algumas nacos de pão umedecidos em água, pois com o estômago totalmente vazio ou muito cheio estraga o paladar ". Arnaldus Villanova, falecido em 1311, era uma figura polêmica e acreditava na na segunda vinda do Messias no ano de 1378, o que lhe valeu uma longa rixa com os monges dominicanos que acabaram por queimar seu livro.(2)

Mencionaremos, a seguir, alguns nomes e fatos marcantes relacionados com o vinho e a medicina do final da Idade Média até o final do século passado.

O francês Ambroise Paré (1510 - 1590), um dos maiores cirurgiões da Idade Média prescrevia cauterização de ferimentos com ferro em brasa seguida da aplicação de ungüentos compostos de vinhos e outras substâncias.(1)

A primeira Farmacopéia de Londres (1618) listava numerosos vinhos e a Farmacopéia Francesa (1840) tinha 164 misturas contendo vinho.(1)

Do século XVII ao século XIX o vinho foi universalmente prescrito como estimulador do apetite, como diurético, como sedativo e especialmente como agente promotor de bem estar físico e emocional. (1)

O médico austríaco Joseph Leopold Avembrugger (1722-1809) criou o método de percussão, por analogia a um fato observado na infância: o pai golpeava com as mãos os barris de vinho para determinar o nível de líquido.(3)

Louis de Pasteur (1822-1895), que não por acaso era um amante do vinho, foi um grande gênio não apenas para a medicina, mas, também, para a enologia. As suas descobertas sobre os microorganismos e a fermentação, publicadas na sua obra "Études sur le Vin", constituem o marco fundamental na história da enologia moderna.


BIBLIOGRAFIA

  1. PICKLEMAN, J.
    A glass a day keeps the doctor.
    Am. Surgeon. 56: 395-397, 1990.
  2. JOHNSON,H.
    The Story of Wine.
    Mitchell-Beazley. London. 1989. 480pp.
  3. SCHROEDER,O.B.
    Iniciação ao vinho.
    Editora da UFSC. Florianópolis. 1985. 296pp